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O que é Violão Clássico? Definição, História, Repertório e Técnica

O chamado “violão clássico” ocupa um lugar singular na história da música ocidental. Muitas vezes confundido com um tipo específico de instrumento ou erroneamente associado ao período Clássico da música europeia (aproximadamente 1750–1820), o termo exige uma análise mais precisa.

02 de April de 2025, às 18:56
Por João Vital Araújo

Este artigo propõe uma definição mais rigorosa do que se entende por “violão clássico”, distinguindo entre o instrumento físico, a prática interpretativa e o repertório a que se refere, ao mesmo tempo em que esclarece confusões terminológicas comuns e apresenta os fundamentos técnicos e históricos desse campo musical.

Foto Violão com destaque na mão do instrumento (parte das tarraxas)

A problemática do termo “violão clássico”

A expressão “violão clássico” carrega ambiguidades que frequentemente dificultam sua correta compreensão.

1. Violão clássico não é, necessariamente, um tipo de instrumento

Apesar de existirem instrumentos construídos de acordo com padrões específicos — como o modelo espanhol consagrado por Antonio de Torres Jurado no século XIX — o que define o “violão clássico” é a maneira como se toca e o repertório abordado, e não exclusivamente o formato ou os materiais do instrumento.

Um mesmo violão com cordas de náilon pode ser usado para executar música popular, flamenco, bossa nova ou até jazz. O que distingue o violão clássico é o seu enquadramento dentro de uma tradição interpretativa erudita, com ênfase na leitura de partituras, na articulação polifônica e no rigor técnico.

2. O termo “clássico” não se refere ao período clássico da história da música

Outro equívoco recorrente consiste em associar o violão clássico exclusivamente à produção musical do chamado período clássico — que abrange compositores como Haydn, Mozart e o jovem Beethoven. Embora o violão clássico possa executar transcrições ou obras desse período, seu repertório vai muito além dele, englobando desde a Renascença até a contemporaneidade.

Portanto, o adjetivo “clássico” deve ser entendido no sentido de “erudito” ou “formal”, em oposição a práticas populares ou improvisadas, e não como referência a uma época histórica específica.

Características da prática violonística clássica

A prática do violão clássico envolve um conjunto de técnicas, posturas e princípios interpretativos próprios da tradição erudita ocidental.

  • Execução dedilhada com os dedos da mão direita, sem uso de palheta;
  • Leitura de partituras e fidelidade ao texto musical;
  • Ênfase na voz melódica, harmônica e contrapontística, com controle refinado do timbre e da dinâmica;
  • Interpretação baseada em critérios estilísticos historicamente informados, quando possível.

O instrumento utilizado

Embora, como mencionado, o violão clássico não dependa exclusivamente de um tipo de instrumento, há um modelo que se consolidou como padrão para essa prática:

  • Seis cordas, usualmente de náilon (três agudas de monofilamento, três graves revestidas);
  • Tampo em abeto ou cedro, caixa acústica em madeiras nobres como jacarandá ou pau-ferro;
  • Escala larga e plana, com espaçamento generoso entre as cordas, favorecendo a articulação independente dos dedos;
  • Afinação padrão em Mi-Lá-Ré-Sol-Si-Mi (da sexta à primeira corda).

Esse modelo deriva, em grande parte, do trabalho de Antonio de Torres, cuja luteria influenciou decisivamente o som e a ergonomia do violão clássico moderno.

Foto de Francisco Tárrega (1852–1909), pioneiro da escola violonística espanhola, cuja obra consolidou o violão como instrumento de concerto no século XIX.
Francisco Tárrega (1852–1909), pioneiro da escola violonística espanhola, cuja obra consolidou o violão como instrumento de concerto no século XIX.

Repertório

O repertório do violão clássico é vasto, tanto em termos históricos quanto estilísticos:

  • Obras renascentistas originalmente compostas para vihuela ou alaúde (como Luis de Milán e John Dowland);
  • Música barroca adaptada, especialmente de compositores como Bach e Weiss;
  • Compositores do século XIX e início do século XX, como Sor, Aguado, Tárrega, Llobet;
  • Obras consagradas do século XX, como os Prelúdios de Heitor Villa-Lobos, as peças de Manuel Ponce e os estudos de Leo Brouwer;
  • Música contemporânea, frequentemente escrita com técnicas expandidas ou em diálogo com outras linguagens.

Conclusão

O violão clássico é, antes de tudo, uma forma de fazer música: uma abordagem interpretativa que exige domínio técnico, conhecimento estilístico e sensibilidade artística. Embora frequentemente associado a um instrumento específico, sua essência reside na prática e no repertório.

Ao compreender a natureza multifacetada do termo e situá-lo corretamente no panorama musical, é possível valorizar com maior profundidade a riqueza que o violão clássico oferece ao intérprete e ao ouvinte.

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