Este artigo propõe uma definição mais rigorosa do que se entende por “violão clássico”, distinguindo entre o instrumento físico, a prática interpretativa e o repertório a que se refere, ao mesmo tempo em que esclarece confusões terminológicas comuns e apresenta os fundamentos técnicos e históricos desse campo musical.

A expressão “violão clássico” carrega ambiguidades que frequentemente dificultam sua correta compreensão.
Apesar de existirem instrumentos construídos de acordo com padrões específicos — como o modelo espanhol consagrado por Antonio de Torres Jurado no século XIX — o que define o “violão clássico” é a maneira como se toca e o repertório abordado, e não exclusivamente o formato ou os materiais do instrumento.
Um mesmo violão com cordas de náilon pode ser usado para executar música popular, flamenco, bossa nova ou até jazz. O que distingue o violão clássico é o seu enquadramento dentro de uma tradição interpretativa erudita, com ênfase na leitura de partituras, na articulação polifônica e no rigor técnico.
Outro equívoco recorrente consiste em associar o violão clássico exclusivamente à produção musical do chamado período clássico — que abrange compositores como Haydn, Mozart e o jovem Beethoven. Embora o violão clássico possa executar transcrições ou obras desse período, seu repertório vai muito além dele, englobando desde a Renascença até a contemporaneidade.
Portanto, o adjetivo “clássico” deve ser entendido no sentido de “erudito” ou “formal”, em oposição a práticas populares ou improvisadas, e não como referência a uma época histórica específica.
A prática do violão clássico envolve um conjunto de técnicas, posturas e princípios interpretativos próprios da tradição erudita ocidental.
Embora, como mencionado, o violão clássico não dependa exclusivamente de um tipo de instrumento, há um modelo que se consolidou como padrão para essa prática:
Esse modelo deriva, em grande parte, do trabalho de Antonio de Torres, cuja luteria influenciou decisivamente o som e a ergonomia do violão clássico moderno.

O repertório do violão clássico é vasto, tanto em termos históricos quanto estilísticos:
O violão clássico é, antes de tudo, uma forma de fazer música: uma abordagem interpretativa que exige domínio técnico, conhecimento estilístico e sensibilidade artística. Embora frequentemente associado a um instrumento específico, sua essência reside na prática e no repertório.
Ao compreender a natureza multifacetada do termo e situá-lo corretamente no panorama musical, é possível valorizar com maior profundidade a riqueza que o violão clássico oferece ao intérprete e ao ouvinte.