Este artigo aborda a importância da figura de Antonio de Torres na história do violão, examinando as inovações técnicas que introduziu e seu legado para a luteria moderna.
Antes de Torres, o violão era um instrumento modesto em volume e projeção, com características construtivas variadas conforme a região. Durante os séculos XVIII e início do XIX, construtores como Gaetano Vinaccia (Itália) e Louis Panormo (Inglaterra) produziram instrumentos com seis cordas simples e caixa harmônica reduzida, utilizados principalmente em ambientes domésticos ou salões pequenos.
Ainda que compositores como Fernando Sor e Dionisio Aguado já tivessem elevado o repertório do violão a um patamar artístico considerável, o instrumento carecia de um modelo unificado que proporcionasse potência sonora, equilíbrio entre os registros e estabilidade estrutural. Foi neste contexto que emergiu a figura de Antonio de Torres.

Nascido em Almería, Espanha, Antonio de Torres iniciou sua carreira como carpinteiro e, posteriormente, formou-se como luthier. Estabelecendo-se em Sevilla, iniciou seus experimentos com o objetivo de criar um violão com projeção sonora suficiente para ser ouvido em salas de concerto, sem a necessidade de amplificação ou acompanhamento.
Seu trabalho atingiu maturidade na década de 1850, quando produziu os primeiros exemplares do que hoje se reconhece como o violão clássico moderno. Torres compreendeu que a qualidade sonora do instrumento estava mais relacionada à tampa harmônica do que à massa total do corpo, princípio que orientou sua filosofia construtiva.
Entre as principais contribuições de Antonio de Torres para a luteria do violão, destacam-se:
Torres aumentou significativamente o tamanho da caixa de ressonância, especialmente da região inferior, conferindo ao instrumento maior volume acústico e riqueza harmônica.
A introdução de um sistema de leque (ou fan bracing) composto por sete a nove barras dispostas em forma radial sob a tampa harmônica foi um marco decisivo. Esse sistema permitiu maior flexibilidade da madeira e melhor distribuição das vibrações, favorecendo um som mais aberto, equilibrado e sustentado.
Torres selecionava cuidadosamente madeiras como o abeto (para a tampa) e o jacarandá ou cipreste (para as laterais e fundo), priorizando leveza e ressonância. Em alguns casos, construiu até mesmo violões com laterais e fundo de papelão envernizado, para demonstrar que a sonoridade dependia sobretudo da tampa harmônica.
A obra de Torres resultou na padronização das proporções do violão, incluindo escalas entre 640–650 mm, largura do braço e curvatura do tampo, que permanecem como referência até os dias atuais.
Os violões de Torres impressionaram músicos como Julián Arcas e, mais tarde, Francisco Tárrega, que passou a utilizá-los como instrumento de escolha. Tárrega, por sua vez, formou uma geração de violonistas que consolidaram a escola espanhola, elevando o status do violão como instrumento de concerto.
A influência de Torres estendeu-se ainda aos grandes luthiers do século XX, como Hermann Hauser I (cujo instrumento foi utilizado por Andrés Segovia) e Ignacio Fleta. Mesmo construtores contemporâneos continuam a se inspirar nos modelos deixados por ele, considerados paradigmas de equilíbrio sonoro e estética formal.
A contribuição de Antonio de Torres Jurado para a história do violão é comparável à de Antonio Stradivari para o violino. Seu trabalho não apenas transformou o violão num instrumento digno das salas de concerto, mas também forneceu um modelo de construção que perdura há mais de um século. O “violão moderno” é, em essência, a obra de Torres: um instrumento de profundidade tímbrica, expressividade poética e presença sonora inigualável.